Glaucoma - Um milhão de vítimas no Brasil

Malu Longo 27 de maio de 2014 (terça-feira)
Sebastião Nogueira

Especialistas alertam que pacientes só costumam detectar doença quando já está em estado mais avançado

Uma doença silenciosa, o glaucoma é a principal causa de cegueira irreversível em todo o mundo. Mesmo tendo atuado como enfermeira grande parte de sua vida, Valdair da Cunha Barbosa, de 60 anos, não deu importância ao aviso do oftalmologista que fez o alerta três anos antes da confirmação do diagnóstico. Como ela, cerca de 1 milhão de pessoas no Brasil são portadoras da doença, muitas não têm ideia de que isso ocorre porque os sintomas iniciais não são perceptíveis. Na imagem, Valdair da Cunha Barbosa faz exame para acompanhar glaucoma

Ontem, Dia Nacional de Combate ao Glaucoma, instituições brasileiras de oftalmologia desencadearam uma série de atividades para conscientizar a população da importância do diagnóstico precoce. Presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), o médico goiano Francisco Eduardo Lopes de Lima estava acompanhando no vão do Museu de Artes de São Paulo (Masp), na capital paulista, a atividade Marque um Gol Contra o Glaucoma com a participação de atletas paraolímpicos cegos. Num gramado sintético, pessoas eram convidadas a marcar um pênalti vendadas. “Queremos mostrar as dificuldades impostas pela cegueira”, disse ao POPULAR. Convidados vendados também vão participar de um almoço e de uma sessão de cinema sensoriais em outras atividades agendadas pela SBG para esta semana.

A ex-enfermeira Valdair Barbosa tinha consulta marcada ontem na Fundação Banco de Olhos, em Goiânia. Há três anos, quando começou a perder a visão, ela passou a usar um colírio duas vezes ao dia para combater a elevação da pressão intraocular (PIO), que provoca privação da chamada percepção periférica. “Foi ficando difícil andar porque eu me desequilibrava. À noite, passei a notar grandes feiches de luz nos faróis e nas lâmpadas dos postes “. Médica do local, Luciana Barbosa Carneiro explica que o grande problema é que as pessoas costumam procurar o oftalmologista quando tem dificuldades para enxergar, mas o glaucoma é silencioso e não tem cura. “O ideal é que, a partir dos 40 anos, a pessoa procure um médico pelo menos uma vez ao ano”.

Conforme o presidente da SBG, geralmente a pessoa perceber que algo está errado quando começa a bater em objetos, tem dificuldades para dirigir e até mesmo de usar degraus. “A visão periférica já está atingida e se não fizer nada para conter a alta da pressão intraocular, o glaucoma avança e não há nada que possa ser feito”. O médico ressalta a importância dos exames oftalmológicos e do acompanhamento de um especialista. “A pessoa não deve se contentar com óculos de leitura comprado em qualquer lugar ou usar colírio sem receita médica, um ou dois anos depois ela vai sentir o reflexo do glaucoma”.

Colírio
Francisco Eduardo Lopes de Lima ressalta que a grande luta da SBG é para que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) regule a venda de colírios à base de corticóide, comercializados livremente pelas farmácias. Benéfico para algumas doenças oftalmológicas, ele pode provocar glaucoma quando seu uso for crônico e não tiver um acompanhamento adequado. Ou seja, às vezes é receitado por um especialista, mas passa a ser utilizado sempre que o incômodo se manifesta. “Esses colírios são vendidos sem nenhuma regulação e cega muita gente. Se já controlaram colírios com antibióticos, por que não fazer o mesmo com aqueles que contém corticóide, que oferecem muito mais perigo?”, questiona o presidente da SBG. Mesmo sendo evitáveis, glaucomas provocados por colírios são os mais comuns.

Duas solicitações para a regulação da venda desses produtos foram protocoladas pela SBG junto a Anvisa, em 2011 e em 2013. Conforme Francisco de Lima, a primeira não teve resposta e a segunda, o retorno não dizia respeito ao que foi pleiteado.

Sem retenção

Em nota enviada ao POPULAR, a Anvisa explicou que os corticoides não estão sujeitos a controle especial, portanto não há necessidade de retenção de receita que contenha a prescrição destes medicamentos. Até o momento não há avaliação da Anvisa para que se faça essa alteração. Disse também que “todas as demandas referentes ao controle de medicamentos estão sendo tratadas em um grupo coordenado pela Anvisa que avalia formas para fazer com que no Brasil a prescrição médica seja de fato respeitada. Estes medicamentos já são sujeitos à prescrição médica (comum) e garantir que as farmácias cumpram a exigência da receita é o caminho correto para garantir que os medicamentos sejam dispensados de forma correta.”

Ainda segundo a Anvisa, do ponto de vista da agência, não adianta tratar cada medicamento de forma individual, mas sim garantindo que a receita seja exigida. A questão será um dos temas debatidos no 16o Simpósio Internacional da SBG agendado para Goiânia de 14 a 16 de maio de 2015.

Fique por dentro

  • Em Goiás, glaucoma atinge 124 mil pessoas

Números do glaucoma

  • 65 milhões de pessoas em todo o mundo
  • 2,4 milhões de novos casos em todo o mundo a cada ano
  • 1 milhão de portadores no Brasil
  • 124 mil de portadores em Goiás

O que é a doença

  • É uma neuropatia que atinge o nervo óptico, que transporta as sensações visuais do olho para o cérebro. O glaucoma é provocado pela alta da pressão intraocular. Entre a córnea e o cristalino existe uma cavidade preenchida por um líquido chamado de humor aquoso. Constantemente produzido e drenado, mantém uma regularidade da pressão e do volume. Se há algum distúrbio, a pressão intraocular aumenta. Primeiro, a cegueira ocorre no campo de visão periférico, depois vai se tornando central e torna-se irreversível quando não controlada na fase precoce.
  • Glaucoma não tem cura, mas pode ser controlada. Numa fase inicial, a alta pressão do olho pode ser combatida com colírios, mas em casos graves somente tratamento a laser ou cirurgias
  • A pressão intra-ocular normal varia entre 8 e 21 mmHg. Acima de 21 mmHg há risco de lesão do nervo óptico. Portadores em potencial
  • Pessoas acima de 40 anos com histórico na família
  • Diabéticos
  • Míopes
  • Integrantes da raça negra
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